‘Olhe Para Mim’ leva o cinema alagoano à mostra competitiva do Olhar de Cinema com estreia mundial em Curitiba
Longa-metragem de Rafhael Barbosa une fantasia, ancestralidade e imaginário popular do Rio São Francisco em produção inédita feita em Alagoas
O cinema alagoano alcança um novo marco em sua trajetória com a estreia mundial de “Olhe Para Mim”, primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Rafhael Barbosa. A produção integra a Mostra Competitiva Brasileira de Longas-Metragens da 15ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, um dos principais eventos cinematográficos do país, realizado até o dia 13 de junho na capital paranaense.
Estrelado por Rejane Faria, Luciano Pedro Jr. e pelo estreante Ulisses Arthur, o filme apresenta uma narrativa fantástica inspirada nos mitos, lendas e tradições que cercam o Rio São Francisco. A produção representa também um marco para o audiovisual alagoano ao se tornar a primeira obra de ficção realizada no estado por meio de edital público a alcançar o circuito nacional de festivais.
A seleção para a mostra competitiva coloca o longa entre os principais lançamentos do cinema brasileiro em 2026 e reforça o crescimento da produção cinematográfica desenvolvida em Alagoas nos últimos anos.

Uma jornada entre o real e o fantástico
A trama acompanha Marcelo, personagem que carrega as marcas do desaparecimento da mãe ocorrido durante uma tradicional festa religiosa de sua cidade. Dez anos após o acontecimento, ele ainda tenta compreender as consequências da ausência que moldou sua vida.
Na véspera de uma nova celebração religiosa, Marcelo conhece Sandra e seu filho Ivan, dois misteriosos viajantes que despertam sua curiosidade e fascínio. O encontro leva o protagonista a embarcar em uma jornada marcada por descobertas, encontros sobrenaturais e experiências transcendentes.
Ao longo do percurso, a narrativa atravessa fronteiras entre realidade, memória e imaginação, conduzindo o público por um universo povoado por seres míticos e elementos ligados ao imaginário popular nordestino.
A maternidade sob uma perspectiva simbólica
Segundo o diretor Rafhael Barbosa, o filme parte de uma reflexão sobre a dimensão simbólica da maternidade, especialmente para filhos queer que vivenciam experiências de ausência, pertencimento e construção de identidade.
“Nosso protagonista, Marcelo, nunca descobriu os motivos do desaparecimento de sua mãe quando criança. Ele cresceu preenchendo o vazio com memórias inventadas e projeções mágicas da realidade. No filme, a mãe é representada com muitas faces, entre elas a ‘rasga-mortalha’, uma entidade ancestral meio humana, meio pássaro, que busca as almas de seus filhos prometidos”, explica o cineasta.
A figura da rasga-mortalha, conhecida em diversas tradições populares brasileiras, ganha novos significados dentro da narrativa e funciona como elo entre memória, ancestralidade e espiritualidade.
Um mergulho nos mitos do sertão e do São Francisco
Além da questão familiar, o filme busca resgatar histórias que fazem parte do patrimônio imaterial da região.
Barbosa destaca que a obra nasceu do desejo de transformar em linguagem cinematográfica os relatos e lendas que ouviu durante a infância.
“Busquei construir uma narrativa para materializar o universo dos mitos que ouvia na infância. Histórias de assombração muito particulares do nosso entorno, da ancestralidade da nossa região. O filme persegue esses mitos, percorrendo lugares muito inspiradores, paisagens inexploradas do baixo São Francisco e do sertão, mostrando uma Alagoas mágica que ainda não foi vista pelo cinema brasileiro.”
O resultado é uma produção que combina fantasia, drama e elementos do realismo mágico para apresentar uma visão singular do Nordeste brasileiro.
Elenco reúne talentos do cinema nacional
O longa traz nomes reconhecidos do audiovisual brasileiro.
Rejane Faria, conhecida pelos trabalhos em “Marte Um” e “Yellow Cake”, divide o protagonismo com Luciano Pedro Jr., ator que participou de produções como “Carro Rei” e da série “Cangaço Novo”.
O elenco principal conta ainda com Ulisses Arthur, que estreia no cinema em um papel de destaque.
Outro nome importante é o da atriz e performer Aura do Nascimento, que interpreta três personagens diferentes ao longo da trama.
Também participam Ivana Iza, Ane Oliva, Flávio Rabelo, Eron Villar, Lucas Carvalho, Nilton Resende, Samuel Cabral e o ator mirim Hugo Ramires.
A diversidade de experiências e trajetórias artísticas contribui para enriquecer o universo proposto pela narrativa.

Paisagens de Alagoas ganham protagonismo
As locações escolhidas para o filme são um dos seus grandes diferenciais.
Aproximadamente 70% das filmagens aconteceram em Penedo, cidade histórica localizada às margens do Rio São Francisco e reconhecida pela UNESCO como integrante da Rede de Cidades Criativas na categoria cinema.
Além de Penedo, a equipe realizou gravações em Belo Monte e Pão de Açúcar, municípios do sertão alagoano que oferecem cenários naturais pouco explorados pelo audiovisual nacional.
A capital Maceió também integra o conjunto de paisagens presentes na produção.
Esses espaços não aparecem apenas como pano de fundo, mas como elementos fundamentais para a construção estética e simbólica do filme.
Produção desafiou limites do cinema independente
Construir um universo fantástico com orçamento limitado exigiu planejamento e criatividade da equipe.
De acordo com o produtor executivo Felipe Guimarães, o projeto representou um dos maiores desafios já enfrentados pela produtora.
“O filme representa um enorme desafio para toda a equipe. Construir um universo fantástico implica um trabalho complexo de produção, direção de arte, caracterização, efeitos especiais, som, fotografia, iluminação e atuação. Enfim, todos os departamentos.”
Segundo ele, o sucesso da empreitada só foi possível graças à combinação entre profissionais experientes do cinema alagoano e nomes que vêm ajudando a consolidar o audiovisual nordestino no cenário nacional.
Marco para o cinema de Alagoas
Mais do que uma estreia importante, “Olhe Para Mim” simboliza uma conquista coletiva para o audiovisual alagoano.
Nos últimos anos, produções do estado vêm conquistando espaço em festivais nacionais e internacionais, ampliando a visibilidade de seus realizadores.
O próprio Rafhael Barbosa já acumula uma trajetória de destaque como produtor, roteirista e diretor.
Entre seus trabalhos anteriores está o documentário “Cavalo”, lançado comercialmente em 2021. Atualmente, ele também desenvolve o longa de animação “Utopia”, previsto para chegar ao público em 2027.
Além disso, participa da produção de diversos projetos premiados que ajudaram a fortalecer o cinema produzido no Nordeste.
Festival amplia visibilidade da produção
A presença de “Olhe Para Mim” na Mostra Competitiva Brasileira do Olhar de Cinema representa uma oportunidade estratégica para ampliar o alcance da obra.
Considerado um dos principais festivais do país, o evento reúne realizadores, distribuidores, críticos e profissionais do setor audiovisual de diferentes regiões do Brasil e do exterior.
A seleção coloca a produção alagoana em evidência diante de um público especializado e fortalece as possibilidades de circulação nacional e internacional do filme após sua estreia.
Ao unir fantasia, ancestralidade, diversidade e identidade regional, “Olhe Para Mim” chega aos festivais como uma das produções brasileiras mais aguardadas da temporada, reforçando o protagonismo crescente do cinema nordestino e apresentando ao público uma Alagoas ainda pouco explorada pelas telas do país.











