A gravidez costuma concentrar atenções, expectativas e cuidados quase exclusivamente no corpo da mulher. No entanto, um vídeo recente publicado nas redes sociais por Léo Santana e Lore Improta, que está grávida do segundo filho do casal, trouxe à tona uma discussão pouco comum, mas cada vez mais presente: homens também podem apresentar sintomas semelhantes aos da gestação? O relato do cantor, que descreveu enjoos, sono excessivo, idas frequentes ao banheiro e até um episódio de queda de pressão, reacendeu o debate sobre a chamada síndrome de couvade, fenômeno que afeta parte dos parceiros durante a gravidez.
A partir da repercussão do vídeo, a experiência vivida por Léo deixou de ser vista como algo isolado e passou a representar um tema mais amplo, que envolve saúde mental, vínculos afetivos e mudanças emocionais profundas durante o período perinatal. Para a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline, esses relatos não devem ser encarados como exagero ou “drama”, mas como manifestações reais de um processo emocional intenso.
“São poucos que apresentam esse comportamento, não é uma prevalência alta, mas a gente começou a perceber cada vez mais nos pais modernos. Então, quando suas parceiras estão grávidas, eles também começam a manifestar alguns dos sintomas”, explica a especialista.
Sintomas que surpreendem e geram dúvidas
Nos stories publicados nas redes sociais, Léo Santana relatou que vinha sentindo sintomas muito semelhantes aos da esposa, Lore Improta, como sonolência constante, enjoo, vontade frequente de ir ao banheiro e até um episódio de queda de pressão. O cantor chegou a brincar com a situação, mas o conteúdo rapidamente gerou identificação entre seguidores e abriu espaço para uma discussão mais séria.
A pergunta que passou a circular foi direta: homens podem, de fato, sentir sintomas de gravidez? A resposta, segundo especialistas em psicologia perinatal, é que sim, em alguns casos. Essa condição recebe o nome de síndrome de couvade, também conhecida como gravidez solidária ou gravidez “fantasma”.
Embora ainda seja pouco conhecida do grande público, a síndrome tem sido cada vez mais observada em homens que vivem a gestação da parceira de forma intensa, emocionalmente envolvida e participativa.
O que é a síndrome de couvade
A síndrome de couvade é caracterizada pelo surgimento de sintomas físicos e emocionais típicos da gestação em parceiros de mulheres grávidas. Entre os sinais mais comuns estão enjoos, tonturas, sonolência, alterações no apetite, dores abdominais e, em alguns casos, até aumento do abdômen e ganho de peso.
Apesar do nome curioso, a síndrome não é considerada um transtorno mental. De acordo com Rafaela Schiavo, trata-se de uma resposta emocional que se manifesta no corpo. “Embora a prevalência não seja alta, cada vez mais casos são observados entre pais modernos, que vivenciam intensamente a experiência da gravidez junto das parceiras”, afirma.
Estudos científicos reforçam essa percepção. Uma pesquisa publicada em 2020 no Journal of Psychosomatic Research apontou que homens podem apresentar sintomas de couvade principalmente durante o primeiro trimestre da gestação da parceira, período marcado por maiores mudanças hormonais, emocionais e pela adaptação à ideia da paternidade.
Relatos reais e o impacto na rotina do casal
Para além das redes sociais, a síndrome de couvade também aparece nos consultórios e no cotidiano de muitos casais. Um pai de primeira viagem, que prefere não se identificar, relata a surpresa ao perceber que algo não estava bem com seu corpo durante a gestação da companheira.
“Passei por tonturas, enjoos, falta de equilíbrio e até azia. Fui ao médico, e ninguém sabia o que eu tinha. Era síndrome de couvade, nem sabia que isso era possível. O mais difícil é que, em vez de apoiá-la, sinto que ela acaba tendo que cuidar de mim também”, conta.
Esse tipo de relato evidencia um ponto sensível: quando os sintomas surgem, muitos homens se sentem confusos, envergonhados ou até culpados por também demandarem cuidados em um momento socialmente entendido como exclusivo da mulher. A falta de informação e de acolhimento contribui para que esses sintomas sejam minimizados ou ignorados.
Psicologia perinatal também cuida dos pais
A psicologia perinatal é uma área que se dedica ao acompanhamento emocional durante a gestação, o parto e o pós-parto. Embora historicamente associada às mulheres, essa especialidade também inclui o cuidado com os parceiros.
Segundo Rafaela Schiavo, psicólogos perinatais atendem homens justamente porque o processo de gestação e chegada do bebê envolve todo o núcleo familiar. “O cuidado envolve o período de gestação e pós-parto e pode incluir o parceiro. Isso costuma fazer diferença quando aparecem ansiedade, insegurança, conflitos no casal ou dificuldades de adaptação à chegada do bebê”, explica.
Entre as possibilidades de acompanhamento está o pré-natal psicológico, que pode ser realizado individualmente ou em grupo, com encontros planejados para abordar expectativas, medos, mudanças na rotina e no relacionamento. A especialista ressalta que é possível, e recomendável, incluir o homem nesse processo e até organizar grupos específicos voltados a pais.
Depressão perinatal masculina também é realidade
Além da síndrome de couvade, outro tema que merece atenção é a depressão perinatal masculina. Pesquisas publicadas pela American Journal of Men’s Health em 2020 indicam que cerca de 10% dos homens podem desenvolver depressão pós-parto, especialmente quando suas parceiras também apresentam o quadro.
Em muitos casos, os sintomas começam ainda durante a gestação, caracterizando a chamada depressão perinatal. Alterações de humor, irritabilidade, isolamento social, ansiedade intensa e dificuldade de vínculo com o bebê estão entre os sinais mais frequentes.
“Há poucos anos, a ciência começou a investigar se o homem poderia, durante a gestação e pós-parto das suas parceiras, apresentar sintomas de depressão. Essa condição é uma realidade que precisa ser mais discutida. Identificar e tratar esses sintomas é fundamental para o bem-estar de toda a família”, alerta Rafaela.
A negligência em relação à saúde mental paterna pode impactar não apenas o homem, mas também a dinâmica do casal e o desenvolvimento emocional do bebê.
A importância do pré-natal do pai
Assim como existe o pré-natal voltado à gestante, o pré-natal do pai é apontado como uma ferramenta importante para preparar emocionalmente o parceiro para a chegada do bebê. Em 2020, a Organização Mundial da Saúde destacou a necessidade urgente de mais pesquisas sobre ansiedade, estresse e outras alterações emocionais significativas em homens no período perinatal.
No Brasil, o pré-natal do pai é considerado um direito e conta, inclusive, com recomendações e materiais elaborados pela própria Secretaria de Saúde. “Esse pré-natal é um direito e há, inclusive, recomendações de como realizá-lo com material da própria Secretaria de Saúde”, reforça a psicóloga perinatal.
A proposta é ampliar o olhar sobre a parentalidade, entendendo que o cuidado emocional durante a gestação deve ser compartilhado e que o envolvimento do pai traz benefícios para toda a família.
Como os pais podem enfrentar essa condição
Para homens que apresentam sintomas de síndrome de couvade ou sinais de depressão perinatal, algumas orientações podem ajudar a lidar melhor com o momento:
Procure apoio psicológico especializado em psicologia perinatal
Participe ativamente do pré-natal, sempre que possível
Comunique-se de forma aberta com a parceira sobre sentimentos e dificuldades
Informe-se sobre saúde mental paterna e parentalidade
Busque redes de apoio, como grupos de pais ou familiares próximos
O acolhimento e a informação são fundamentais para que esses sintomas não se tornem fonte de sofrimento silencioso.

Quem é Rafaela Schiavo
Profª-Dra. Rafaela de Almeida Schiavo é psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline. Desde sua formação inicial, dedica-se à saúde mental materna e parental, sendo autora de centenas de trabalhos científicos com o objetivo de reduzir as elevadas taxas de alterações emocionais maternas e familiares no Brasil.
Possui graduação em Licenciatura Plena em Psicologia e em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). Concluiu mestrado em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem e doutorado em Saúde Coletiva pela mesma instituição. Realizou pós-doutorado na Unesp/Bauru, integrando o Programa de Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem.
Tem ampla experiência na área de Psicologia, com ênfase em Desenvolvimento Humano, atuando principalmente nos temas desenvolvimento pré-natal e na primeira infância, psicologia perinatal e parentalidade.












