Duas noites, 92 mil pessoas, 61 músicas e quase cinco horas de espetáculo transformaram o Allianz Parque no epicentro da música latina no Brasil. A passagem de Bad Bunny por São Paulo consolidou a arena como um dos principais destinos de grandes turnês internacionais, reunindo fãs de diferentes países em uma celebração que misturou identidade cultural, emoção e potência artística.
Entre repertório extenso, homenagens ao Brasil e forte mobilização do público, o estádio viveu duas noites que entraram para a história da música ao vivo no país.
Duas noites que entraram para a história
Ao todo, 92 mil pessoas passaram pela arena nas duas apresentações. Foram 30 músicas no primeiro dia e 31 no segundo, totalizando 61 faixas executadas em 296 minutos de show. Os números impressionam, mas ajudam apenas parcialmente a dimensionar a atmosfera que tomou conta do espaço.
Desde a abertura dos portões, já era possível perceber que não se tratava de um show comum. Fãs chegaram a formar fila ainda às 21h da quinta-feira anterior às apresentações, revelando a expectativa em torno do espetáculo. A movimentação intensa nos arredores do estádio reforçou o impacto cultural e econômico do evento na capital paulista.
No palco, o artista porto-riquenho entregou uma performance que alternou momentos de euforia coletiva e passagens mais introspectivas, conectando diferentes fases de sua carreira.

Abertura caribenha e conexão com o Brasil
A noite começou com a banda porto-riquenha Chuwi, que apresentou um repertório marcado por ritmos caribenhos e conquistou o público brasileiro logo nos primeiros minutos. A escolha da atração de abertura já indicava o tom latino e identitário que marcaria o espetáculo principal.
Antes da entrada de Bad Bunny, um curta-metragem exibido nos telões introduziu o universo do álbum e ampliou a narrativa estética do show. O filme contou com a participação da atriz brasileira Lili de Siqueira, reforçando o diálogo com o público local.
Quando surgiu no palco, o artista demonstrou emoção diante da recepção calorosa. Visivelmente comovido, agradeceu aos fãs e celebrou a realização do sonho de se apresentar no Brasil, destacando a importância daquele momento em sua trajetória.
Repertório que mistura festa e identidade
O setlist trouxe contrastes marcantes. A sequência de “BAILE INoLVIDABLE” levantou a multidão com sua atmosfera festiva e nostálgica, enquanto “NUEVAYoL” trouxe à tona reflexões sobre identidade latina e a experiência da diáspora.
Os momentos de aproximação cultural com o Brasil também chamaram atenção. Em um dos trechos mais comentados da noite, o artista executou um solo de “Garota de Ipanema” em um cuatro porto-riquenho, gesto que foi recebido com aplausos entusiasmados. A referência a “Mas, Que Nada” também reforçou a ponte simbólica entre Porto Rico e Brasil.
No segundo ato do espetáculo, Bad Bunny se deslocou até a estrutura chamada “La Casita”, posicionada no fundo da pista. Vestindo a camisa da seleção brasileira de 1962, conduziu um bloco de hits que transformou o estádio em um grande perreo coletivo. O momento simbolizou a união cultural latina e elevou ainda mais a temperatura da apresentação.
Palco 360 graus e experiência imersiva
A arquitetura do palco foi outro ponto alto da produção. Com diferentes pontos de atuação, como “Los Vecinos” e a própria “Casita”, o espetáculo assumiu um formato quase 360 graus, aproximando o artista do público em vários setores da arena.
Essa configuração ampliou a sensação de comunidade e participação coletiva. Em vez de um único ponto central, o show se espalhava pelo espaço, criando novas perspectivas visuais e reforçando a grandiosidade da montagem.
No encerramento, o personagem animado Concho apareceu nos telões. Inspirado em uma espécie de sapo ameaçada de Porto Rico, ele funciona como metáfora da identidade porto-riquenha diante das pressões sociais e urbanas. A presença do personagem adicionou uma camada simbólica ao espetáculo, sintetizando o tom cultural e político presente na estética do álbum e da turnê.
Histórias de quem cruzou fronteiras
A força do evento também se refletiu nas histórias dos fãs. Pessoas de diferentes estados e países viajaram para acompanhar as apresentações em São Paulo.
Entre elas está Robert Vélez, que percorreu mais de 4 mil quilômetros desde Santa Cruz de la Sierra até a capital paulista. “Estou muito emocionado, porque sou uma das 10 primeiras pessoas na fila para ver o show. Foram mais de 36 horas de viagem e mais de 4 mil quilômetros de distância de Santa Cruz de la Sierra, minha cidade natal, até São Paulo. Vim exclusivamente pelo Bad Bunny. Estou no melhor lugar para poder vê-lo, no Allianz Parque”, afirmou.
O relato ilustra a dimensão internacional do público presente e reforça a relevância do artista na cena global.

São Paulo na rota dos megashows
A passagem de Bad Bunny pelo Allianz Parque reafirma a vocação do estádio para receber produções internacionais de grande porte. Ao transformar São Paulo em ponto de encontro de fãs latinos de diferentes nacionalidades, o evento fortalece a cidade como rota obrigatória das principais turnês mundiais.
Mais do que dois shows, as apresentações consolidaram o espaço como um dos centros mais relevantes da música ao vivo no continente. A combinação entre estrutura, público engajado e produções grandiosas evidencia o protagonismo do Brasil no circuito internacional de entretenimento.
Nas duas noites em que o Allianz Parque virou a capital simbólica da América Latina, ficou claro que a música segue sendo uma das maiores forças de conexão cultural do nosso tempo.












