Canção une reflexão, presença e liberdade criativa em uma obra que dialoga com o passado e aponta para os caminhos do próximo álbum do artista gaúcho
A música “Calma”, integrante do álbum Tudo É Processo, terceiro disco de estúdio do cantor e compositor gaúcho Érico Moura, sintetiza uma das principais características da trajetória do artista: a capacidade de transformar reflexões profundas sobre a existência em canções sensíveis, poéticas e conectadas com o cotidiano. A obra ganha novo significado em um momento especial da carreira de Moura, que atualmente se dedica à gravação de seu quarto álbum de estúdio, O Outro Lado do Silêncio, projeto que amplia seu universo criativo e reafirma seu compromisso com a canção autoral contemporânea.
Natural de Porto Alegre, Érico Moura construiu uma trajetória consistente na música independente brasileira, transitando por diferentes influências que incluem MPB, folk, rock e sonoridades latino-americanas. Ao longo de sua carreira, lançou três álbuns de estúdio, dois discos ao vivo, dez singles e três videoclipes, além de realizar apresentações em diversas cidades da Região Sul, Santa Catarina e do Rio de Janeiro.
A canção “Calma” ocupa um lugar especial dentro de sua discografia por abordar temas universais como transformação, presença e autenticidade. Segundo o próprio artista, a música está diretamente conectada ao conceito que orienta o álbum Tudo É Processo, trabalho que propõe uma reflexão sobre as mudanças constantes da vida e sobre a necessidade de estar atento ao momento presente.
“Calma” faz parte de Tudo É Processo, meu terceiro disco de estúdio, um trabalho que fala da vida como transformação contínua, daquilo que muda, permanece e pede presença. Tem uma frase da canção que gosto muito: “porque pra ser verdade tem que estar inteiro aqui”.
A frase destacada por Moura resume a essência da composição e estabelece um diálogo direto com questões contemporâneas relacionadas à aceleração da rotina, à ansiedade e à busca por significado. A proposta da canção não é oferecer respostas prontas, mas convidar o ouvinte a uma pausa, a um encontro consigo mesmo e com aquilo que é verdadeiramente essencial.
Uma trajetória marcada pela canção autoral
A consolidação do trabalho de Érico Moura ocorre em um cenário cada vez mais desafiador para artistas independentes. Ainda assim, o músico tem conquistado reconhecimento pela consistência de sua produção artística e pela qualidade de suas composições.
Seu trabalho recebeu destaque internacional quando foi apontado pelo portal cultural uruguaio Cooltivarte como representante do chamado “templadismo”, uma corrente estética associada às expressões culturais do sul da América Latina. A definição evidencia uma característica recorrente em sua obra: a aproximação entre diferentes identidades musicais latino-americanas e a valorização das experiências culturais compartilhadas entre os povos da região.
No Brasil, sua produção também chamou a atenção do jornalista e crítico musical Juarez Fonseca, que destacou a força poética de suas composições e a solidez de sua trajetória artística.
Essa combinação entre lirismo, reflexão e diversidade sonora tem sido uma marca registrada do compositor, que desenvolveu uma identidade própria ao longo dos anos sem abrir mão da experimentação e do diálogo com diferentes tradições musicais.
Reconhecimento internacional
O ano de 2024 representou um marco importante na carreira de Érico Moura. O artista foi o único brasileiro selecionado para participar do 24:1900 Global Music Festival, evento internacional que reuniu músicos de diferentes fusos horários em uma grande celebração da música global.
A participação resultou na gravação do álbum 24:1900 Ao Vivo, registro que ampliou a visibilidade de seu trabalho para novos públicos e reforçou sua inserção em circuitos culturais internacionais.
O reconhecimento conquistado no festival confirma a relevância de uma trajetória construída de forma independente e baseada na valorização da criação autoral.
O outro lado do silêncio
Se “Calma” representa um convite à presença, o novo álbum em produção parece aprofundar ainda mais essa investigação artística. Intitulado O Outro Lado do Silêncio, o disco nasce a partir de um conceito poético desenvolvido em parceria com o escritor e poeta Celso Gutfreind.
O ponto de partida do trabalho é o poema homônimo criado especialmente para Moura. A frase “foi da canção que nasci, foi na canção que vivi o outro lado do silêncio” atravessa todo o projeto e funciona como eixo conceitual para as composições.
De acordo com o artista, há uma conexão direta entre a proposta de “Calma” e o universo criativo do novo álbum.
“De certo modo, ela conversa também com o novo álbum que estou gravando, O Outro Lado do Silêncio, onde tenho aproximado ainda mais canção e sonho, esse espaço de liberdade, imaginação e criação que talvez seja um dos mais humanos que existem.”
A declaração revela o desejo do compositor de explorar territórios simbólicos ligados ao sonho, à imaginação e à liberdade criativa, elementos que se tornam centrais na construção da nova obra.
Um álbum de encontros artísticos
Além do conceito poético, O Outro Lado do Silêncio se destaca pela quantidade de colaborações reunidas em sua produção.
Entre os convidados confirmados estão nomes de diferentes gerações e estilos da música brasileira e latino-americana, como Marcos Suzano, Marcelo Delacroix, Carolina Cáceres, Nino Prestes, Adriano Trindade, Luciano Granja, Júlio Porto, Luciano Leães e Ricardo Arenhaldt.
O projeto contará ainda com arranjos de cordas assinados por Fabrício Gambogi, integrante da banda Dingo, ampliando a riqueza sonora do trabalho.
Nas composições, Moura divide a autoria de letras com nomes como Celso Gutfreind, Pedro Gonzaga, Letícia Lopes e Bianca Obino, fortalecendo a proposta de um álbum construído a partir do encontro entre diferentes linguagens artísticas.
Uma América Latina imaginada pela canção
Musicalmente, o novo trabalho percorre diferentes paisagens culturais do continente latino-americano. O álbum incorpora referências à cumbia, candombe, chacarera, chamamé, zamba, salsa, samba, marchinha, xote, milonga e rock.
Essa diversidade sonora reforça uma característica presente em toda a carreira de Moura: a busca por pontes entre culturas e tradições musicais distintas.
A inédita “Latinoamérico” sintetiza esse movimento ao propor uma reflexão sobre identidade, pertencimento e liberdade. A canção imagina uma América Latina livre de opressão, racismo, desigualdades e submissões históricas, transformando a música em espaço de sonho e resistência.
A produção musical do álbum permanece sob a responsabilidade de Diego Lopes, parceiro recorrente do artista e responsável também pelos dois trabalhos anteriores.
Música e ciência
Além da atuação artística, Érico Moura desenvolve uma sólida carreira acadêmica e profissional na área da saúde mental. Médico psiquiatra e psicoterapeuta, é mestre e doutor em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A convivência entre música e ciência não aparece como uma contradição em sua trajetória, mas como dimensões complementares de uma mesma busca pela compreensão da experiência humana.
Essa sensibilidade se manifesta tanto nas letras quanto nas reflexões presentes em suas composições, aproximando sua obra de temas como subjetividade, escuta, transformação e construção de sentido.
A importância de ‘Calma’ em sua discografia
Dentro desse contexto, “Calma” pode ser vista como uma síntese das inquietações artísticas e humanas que atravessam a obra de Érico Moura.
Ao defender a ideia de que “para ser verdade tem que estar inteiro aqui”, a canção propõe uma reflexão que ultrapassa os limites da música e dialoga com questões fundamentais da vida contemporânea.
Mais do que uma simples faixa de um álbum, a composição representa um convite à presença, à escuta e à valorização dos processos de transformação que moldam a existência humana.
Em um momento de expansão artística e reconhecimento crescente, “Calma” permanece como uma das obras mais emblemáticas de um compositor que faz da canção um espaço de encontro entre poesia, reflexão e liberdade.










